Rio de Janeiro, 05 de fevereiro de 2012
 
 
 

Judô

 

Equipe

 

Alunos

 

Informações

 
 
 

:: Dicas ::

 
 
OVERTRAINING

por Marco André Albuquerque

Ao contrário do que possa parecer, supertreinamento não é a designação de um treinamento de excelente qualidade, mas sim a designação de uma síndrome decorrente do excesso de treinamento e/ou do reduzido intervalo de descanso.

Expor o organismo a um estresse (estímulo) para que este responda e se adapte é à base do treinamento. Este estímulo, se fraco, não provoca ganho em termos de treinamento. Se forte demais, lesiona ou leva o atleta a um estado de fadiga crônica, e esta, conduz à síndrome de supertreinamento.

A síndrome de supertreinamento ou strain ou "overtraining" é uma situação de difícil mensuração e um desafio constante para treinadores e atletas, uma vez que o treino ótimo apresenta um grau de estímulo que está acima do fraco e imediatamente abaixo do estímulo de supertreinamento. Por isto a importância de se determinar a carga de treinamento de forma individualizada.

Associado ao treinamento mal dimensionado e/ou ao reduzido intervalo de descanso, outras fontes de estresse concorrem para o surgimento da síndrome do supertreinamento, principalmente as fontes de estresse do dia-a-dia como as do trânsito, do trabalho, as noites mal dormidas, a alimentação deficiente, além de treinos repetitivos e/ou monótonos.

A síndrome de supertreinamento tende a ocorrer, com maior freqüência, próximo às competições, tanto em esportes com características aeróbias quanto nos de características anaeróbias. Os períodos pré-competitivo e competitivo são os momentos de maior cobrança psicológica do atleta, e coincidem com elevados níveis de treinamento.

PÚBLICO ATINGIDO

Não são somente os atletas de elite que estão sujeitos a síndrome de supertreinamento. Atletas amadores e freqüentadores de academias estão cada vez mais sujeitos a esta síndrome. As causas do supertreinamento variam de atleta para atleta, dependendo de variáveis como o estado físico e fisiológico, tipo de exercício e outros fatores, o que requer atenção aos sinais e sintomas da síndrome.

SINAIS E SINTOMAS

A sintomatologia associada à síndrome do supertreinamento mudou nos últimos 50 anos; da excitação (conhecida como forma simpática) para a inibição (conhecida como forma parassimpática).

A forma parassimpática predomina entre os atletas de esporte de endurance enquanto que a simpática predomina entre os atletas de academia. Os principais sinais e sintomas são irritabilidade, alteração do sono, maior freqüência de gripes e resfriados, além de maior susceptibilidade ao surgimento de lesões.

Os estados de fadiga podem ser divididos em três grupos: fadiga aguda, fadiga de microciclo e fadiga crônica.

Muitos programas de treinamento estruturados fazem uso da fadiga de microciclo como um estímulo de treinamento.

FORMAS DE DETECÇÃO

Afastamentos prolongados da atividade, como os que são necessários para a recuperação do atleta em caso de supertreinamento, não são interessantes para a performance, tampouco para a auto-estima do atleta. Reconhecer a fadiga crônica é possível e importante.

As pesquisas procuram formas objetivas e práticas de identificar o início de quadros de fadiga crônica. A possibilidade de mensurar de forma objetiva estes indicadores abre a possibilidade de ajustar o treino de tal modo que será possível trabalhar em uma intensidade exatamente anterior àquela que provocaria a fadiga, otimizando os resultados.

A disponibilidade de poucas ferramentas para o diagnóstico da instalação da fadiga crônica contrasta com o grau de comprometimento que representa a instalação da mesma para o atleta.

Foram sugeridas ao longo dos anos formas de identificar a instalação da fadiga como a avaliação através de testes ergométricos, análise da curva de lactato, dosagem de marcadores hormonais e do estresse oxidativo, aplicação de testes psicológicos, resposta a estímulo elétrico e dosagem de parâmetros metabólicos como a glutamina e as reservas de glicogênio.

ORIENTAÇÕES

A duração do teste de estresse, a concentração máxima de lactato em exercício de cargas progressivas e as alterações do padrão de humor são apontados como os parâmetros mais sensíveis para o diagnóstico do supertreinamento.

O treinamento de intensidade é atualmente apontado como o mais eficiente em termos de performance, havendo uma tendência a redução do volume do treinamento. Esta tendência, entretanto, aumenta a possibilidade de quadros de fadiga crônica; fadiga de microciclo e supertreinamento. A recomendação é que o treino intenso ocorra em dias alternados, em forma de ciclos. É também interessante que o atleta descanse ao menos um dia por semana. Também é recomendado que os treinamentos mais intensos ocorram entre as semanas 12 e 4 antes da competição.

RECUPERAÇÃO

Um atleta que não se recupera de uma carga de treino dentro de 72 h é considerado como em início de estado de supertreinamento na sua forma mais branda, ou seja, fadiga de microciclo.

Um quadro de fadiga crônica pode ser esperado em torno da terceira semana de treinos em atletas de endurance submetidos a treinos intensos/prolongados em alto nível.

Com um regime de recuperação bem planejado, os sintomas do supertreinamento normalmente desaparecem entre 6 e 12 semanas, mas podem se prolongar ou reaparecerem caso o atleta retorne antes do tempo às sessões de treino intenso.

A detecção do supertreinamento necessita de uma combinação de diferentes parâmetros, não podendo ser sustentada com base em fatores isolados.

A identificação precisa do início da síndrome de supertreinamento é difícil e muitas vezes ocorre depois que o atleta se vê em um ciclo de queda de rendimento e aumento de treino, sem resposta.

A avaliação dos sinais e sintomas deve ser executada de forma rotineira e incorporada ao programa de treinamento de modo que a fadiga aguda provocada pelo exercício, associada à carga de treinamento, não seja interpretada como a fadiga crônica apresentada com o supertreinamento.

Como recomendações gerais, o atleta deve cuidar da sua alimentação e do repouso, além de evitar formas extras de estresse.

ORIENTAÇÕES DE CARATER GERAL

1) procure seguir um treino bem dimensionado,

2) realize constantemente a monitoração do estado de humor, fadiga, sintomas e performance,

3) reduza a exposição ao estresse periférico,

4) realize um acompanhamento nutricional adequado, especialmente no que se refere ao consumo calórico total, o consumo de carboidratos, BCAA e vitaminas anti-oxidantes (C e E),

5) descanse, obedeça a redução prevista de treinamento e permita a alternância de dias entre treinos intensos e mais leves.

Bibliografia consultada

Arruda, A. (2002, 5 de setembro). Excesso de exercício desestabiliza o corpo. Folha de São Paulo, folha equilíbrio, p. 6-8.

Billat V. L, Koralsztein J. P. et al. 1999. Interval training at VO2max: effects on aerobic performance and overtraining markers. Med Sci Sports Exerc 31(1):156-63;

Bosquet L. , Legros P. et al. 2001. Blood lactate response to overtraining in male endurance athletes. Eur J Appl Physiol 84(1-2):107-14;

Budgett R. 1998. Fatigue and underperformance in athletes: the overtraining syndrome. Br J Sports Med 32(2):107-10;

Chicharro J. L., Vaquero A. F. et al. 1998. Overtraining parameters in special military units. Aviat Space Environ Med 69(6):562-8;

Eichner E. R. 1995. Overtraining: consequences and prevention. J Sports Sci 13 Spec No:S41-8

Foster C. 1998. Monitoring training in athletes with reference to overtraining syndrome. Med Sci Sports Exerc 30(7):1164-8;
Fry R. W., Keast D. et al. 1991. Overtraining in athletes. An update. Sports Med 12(1):32-65;

Fry R. W, Keast D. et al. 1992. Periodisation and the prevention of overtraining. Can J Sport Sci 17(3):241-8;

Fry A. C., Kraemer W. J. 1997. Resistance exercise overtraining and overreaching. Neuroendocrine responses. Sports Med 23(2):106-29;

Gastmann U. A. Lehmann M. J. 1998. Overtraining and the BCAA hypothesis. Med Sci Sports Exerc 30(7):1173-8;

Hooper S. L, , Bachmann A. W. et al. 1993. Hormonal responses of elite swimmers to overtraining. Med Sci Sports Exerc 25(6):741-7;

Hooper S. L., Bachmann A. W. et al. 1995. Markers for monitoring overtraining and recovery. Med Sci Sports Exerc 27(1):106-12;

Jeukendrup A. E & Hesselink M. K. 1994. Overtraining--what do lactate curves tell us? Br J Sports Med 28(4):239-40;

Jidovtseff B & Crielaard J. M. 2001. [Overtraining in endurance athletes]. Rev Med Liege 56(5):343-52;

Kentta G, Hassmen P. 1998. Overtraining and recovery. A conceptual model. Sports Med 26(1):1-16;

Koutedakis Y, Sharp N. C. 1998. Seasonal variations of injury and overtraining in elite athletes. Clin J Sport Med 8(1):18-21;

Kuipers H. & Keizer H. A. 1988. Overtraining in elite athletes. Review and directions for the future.
Sports Med 6(2):79-92;

Lehmann M, Bachl N. et al. 1992. Decreased nocturnal catecholamine excretion: parameter for an
overtraining syndrome in athletes? Int J Sports Med 13(3):236-42;

Lehmann M, Keul J. et al. 1993. Overtraining in endurance athletes: a brief review. Med Sci Sports Exerc 25(7):854-62;

Lehmann M. J, Gastmann U. et al. 1997. Training and overtraining: an overview and experimental results in endurance sports. J Sports Med Phys Fitness 37(1):7-17;

Lehmann M., Gastmann U. et al. 1997. Monitoring high-intensity endurance training using neuromuscular excitability to recognize overtraining. Eur J Appl Physiol Occup Physiol 76(2):187-91;

 

MARCO ALBUQUERQUE
Consultor WebRun sobre Fisiologia do Exercício.

Graduado em Educação Física (EPMESP); Mestrando (UNIVAP), Pós-graduado em Fisiologia do Exercício (UNIFESP) e em Treinamento Desportivo (UNIFESP).

Possui extensão universitária em Bases Fisiológicas do Treinamento Desportivo (CEMAFE). É Consultor em fisiologia da revista Contra-Relógio e Fisiologista da CORPORE São José dos Campos.